Mulheres ao volante: Suzane Carvalho

É a primeira vez deste ano que a seção Mulheres ao Volante aparece no nosso querido blog. Depois de falar sobre as mulheres que brilharam principalmente no velho continente, hoje vamos falar sobre a piloto que praticamente abriu as portas do automobilismo brasileiro para as meninas.

Mas antes de se tornar piloto, Suzane tinha uma outra carreira, a de modelo e atriz. Filha da atriz Lia Farrel e irmã da ex-atriz Simone Carvalho, foi até natural que ela seguisse o mesmo caminho percorrido pela sua família.

Suzane começou sua carreira artística com apenas 2 anos de idade. De acordo com sua página oficial, Suzane fez em torno de 250 comerciais. Sua primeira participação no teatro aconteceu quando ela tinha 13 anos, aos 14 ela já estava fazendo cinema e aos 18 ela estreava na TV, atuando na novela “O Homem Proibido”, da Rede Globo.

De 1977 até 1988 ela participou de peças como “O Analista de Bagé”, “Bocage” e “Férias extra-conjugais” e chegou a produzir algumas peças no eixo Rio-São Paulo. Na televisão, ela participou das novelas “Vereda Tropical” e “Champagne”. Trabalhou programas humorísticos como “Chico Anísio Show” e programas especiais como “Caso Verdade” e “A Era dos Halley”. Atriz e modelo de sucesso, Suzane virou sexy símbolo e chegou a posar nua para revistas masculinas (foi a alegria de muito marmanjo que passa por aqui).

Fotos do carnaval do Rio…

Porém (como sempre tem um porém), Suzane sempre gostou de esportes desde de criança. Acompanhava de perto o automobilismo. Via e lia tudo que era relacionado ao esporte desde os tempos de Emerson Fittipaldi e ia aos autódromos. Tudo isso ia alimentando um grande sonho: se torna uma piloto. Só que ela não sabia como ou o que fazer para realizar este dejeso que ela tinha desde criança.

Tudo mudou em julho de 1989, quando ela viu o anúncio Escola de Pilotagem de Kart em uma revista. Depois da primeira aula ela não pensou duas vezes e abandonou a sua carreira artística, com apenas 25 anos de idade.

“Foi assim: eu estava fazendo massagem, deitada e lendo uma revista de automobilismo quando vi um anúncio de Escola de Pilotagem de Kart. Fiquei louca, pois não sabia que existia isso. Liguei dali da massagista mesmo… e não tinha celular na época. Colocaram aquela extensão, aquele fio enorme atravessando a sala (risos) e eu falei com eles dali mesmo. Matriculei por telefone! As pessoas pensam que kart é coisa de criança, mas vi que tinha uma categoria que era para pilotos acima de 30 an os (Sênior). Entendi então que eu, com 25, poderia correr também.”

Em julho de 1989 aconteceu a estréia de Suzane no kart, em Ipatinga-MG. Era nada mais, nada menos que o Campeonato Brasileiro de Kart de novatos. Três meses depois ela estava correndo o Campeonato Brasileiro Sênior, aonde ela se sagrou a vencedora no meio dos marmanjos. Foi campeã brasileira no seu primeiro ano de kart.

No ano seguinte, Suzane continua aterrorizando nas pistas cariocas e fatura o Carioca de Kart e venceu também a Taça de Prata. Foi vice-campeã das Taças Rio de Janeiro e Taça de Ouro.

Ainda em 1990, Suzane fez o curso da escola do piloto Aldo Piedade, com os primeiros monopostos (Fórmula Ford 1600). De lá partiu para o Canadá, para fazer o curso de Fórmula 2000, com Spenard David, chegando a disputar e vencer algumas provas.

Em 1991 Suzane resolve participar do competitivo campeonato italiano de F2000. Mesmo contando com poucos recursos, a brasileira mostrou muito talento e chamou a atenção de toda a mídia especializada.

Em 1992 Suzane volta para o Brasil para participar, na época, do fortíssimo Campeonato Brasileiro e Sul-Americano de F3-B (B era a denominação que davam para a categoria que corria com os carros mais antigos ao invés de andar com os modelos mais novos, que foram introduzidos naquele ano).

Claro que o resultado você já imagina (ou sabe): Suzane se sagra campeã Brasileira e Sul-Americana de F3. Foi a 1ª mulher a ganhar um título de F3 no mundo, o que a levou para o Guinness Book e para a Enciclopédia Barsa. Além dos campeonatos, Suzane ganhou um documento muito importante e que poucas mulheres do mundo obtiveram: a Super Licença. Com o documento ela estava apta, por exemplo, a participar do Mundial de Fórmula Um.

No ano de 1993 aconteceu  algo que Suzane se arrepende: a oportunidade de andar num F1 surgiu, mas ela não aproveitou. Numa entrevista cedida ao Nobre do Grid, Suzane foi perguntada se ela mudaria algo na sua carreira. Com a palavra, Suzane:

“Caramba!  Sim, com certeza. E a maior delas teria sido aceitar o teste com um Fórmula 1. A Larrouse me convidou para testar o carro deles em 1993 e eu acabei não aceitando com um certo medo se que fosse apenas uma jogada de marketing e eles me dessem um equipamento muito ruim.  Hoje entendo que eu deveria ter feito essa jogada de marketing, pois as equipes, que seriam meu alvo, sabem como funcionam esses “testes”.  A Minardi também me chamou para correr por duas vezes, mas ali envolvia muita grana. Mas, mesmo sem ter sentado e ido para a pista com um Fórmula 1, posso dizer que, tecnicamente, eu cheguei lá. Consegui a Superlicença e o direito de correr. Sou a única mulher no Brasil e umas das poucas no mundo que conseguiu isso.”

Deixando o triste fato de lado, Suzane continuou com sua carreira. Em 93, Suzane participou das Mil Milhas de Interlagos. Correndo com um Stock Car, Suzane chegou em 3º lugar. Repetiu o feito no ano seguinte, mas dessa vez }a bordo de um protótipo da Volkswagen.

Em 95 Suzane participa do Campeonato Argentino Copa de Damas com um Nissan Sentra. Conquistou 3 vitórias e subiu diversas vezes ao pódio. Sagrou-se “campeã moral” do torneio, pois não tinha permissão oficial para somar pontos.

No ano de 96 ela participa de diversas categorias de turismo e kart tanto no Brasil quanto na Argentina. Conquistou 3 das 4 etapas do Campeonato Carioca de Turismo e formou a 1ª equipe feminina a correr nas Mil Milhas de Interlagos. Depois de 8 horas de prova elas estavam em 4º lugar, mas tiveram que abandonar devido à problema no carro.

Já 97 foi um ano bastante movimentado. Participou  de todas as etapas do Campeonato Carioca de Turismo de forma intensa, sempre disputando os primeiros lugares. Só não levou o campeonato porque um dos concorrentes pagou 2 pilotos para colocar ela pra fora da pista nas duas últimas etapas. Terminou o campeonato em 3º lugar. Ela também voltou a correr na F3 Sul-Americana, aonde participou de 4 etapas e participou também de algumas etapas do carioca de Kart. De novo ela deu as caras nas Mil Milhas de Interlagos, conquistando um 6º lugar com uma dupla feminina.

Em 98 ela volta a competir na Europa, mas desta vez na Inglaterra. Por lá ela disputou 4 etapas na Fórmula Palmer Audi e 7 no Campeonato Inglês de Vectra.

No ano de 99, Suzane participa de 5 corridas do Campeonato Pan-Americano de Indy Lights. Depois disso, para o ano 2000 ela consegue o patrocínio da UOL para participar da metade do campeonato. Diz a Suzane que foi o carro mais potente que ela já pilotou.

Em 2001 e 2002 ela participou de algumas etapas de kart e em Campeontos de Turismo pelo Brasil, como a Copa Clio.

Suzane em ação na Copa Clio

Hoje Suzane cuida do seu outro grande sonho, que é o Centro de Treinamento de Pilotos, aonde ministra aulas para a formação de pilotos, de diversas categorias, além de manter sua prpria equipe de kart. Além disso, ela dedica parte do seu tempo à literatura. Um de seus livros, o “Cursos de Pilotagem de Kart”, já esta no seu segundo lançamento.

Existem ainda outros livros a serem publicados: o CURSO AVANÇADO DE KART, o CURSO DE  PILOTAGEM PARA CRIANÇAS – o primeiro no estilo, no mundo;  O SEGREDO DE DIRIGIR BEM – voltado para o público em geral; o biográfico (mas este ainda vai demorar!), o de CRÔNICAS E POESIAS e o COMO CUIDAR DE SEU HAMSTER, pois ela cria hamsters desde sempre.

Suzane dando instruções para um de seus alunos

Sempre com muita dificuldade em arrumar patrocínio, talvez o maior erro de Suzane foi não ter um empresário.  Mesmo assim, Suzane nos mostra que quando queremos, nós podemos transformar nossos sonhos em realidade. Corajosa, destemida e talentosa (além de bonita), abandonou sua carreira de sucesso no meio artístico para se dedicar à sua paixão, vencendo vários desafios e preconceitos e passando por cima das adversidades.

Estou a procura de novas fotos. Vou atualizar neste final de semana.

Bom final de semana para todos

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2 respostas para Mulheres ao volante: Suzane Carvalho

  1. Pipe disse:

    Ótima história cara, não sabia que a Suzane tinha passado por esse monte de categoria não, quem dera ter uma carreira assim.
    Eu a conheci pessoalmente no kartódromo (ou o que tem aqui parecido com isso) onde fica a equipe dela. Ela está sempre por lá com algum aluno. Cheguei a falar com ela por telefone pra checar o preço da escola de pilotagem mas achei muito caro e fiz outra. Mas ela também dá um curso acho q uma vez por mês, de pilotagem defensiva, agressiva, cavalo de pau e etc. As aulas são lá no resto de autódromo de Jacarépaguá.
    Shoe de bola a história e as fotos.
    Abraço.

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