Mulheres ao volante: Camille Gamond du Gast

No post de hoje eu tentarei contar a história daquela que foi a pioneira em muitas coisas, e a segunda mulher a participar de uma corrida oficial contra os marmanjos. E é uma bela história, que envolve tudo o que as mulheres são capazes de fazer. Infelizmente os dados que eu encontrei são conflitantes, o que atrapalhou um pouco na criação do post. Espero que vocês entendam.

Camille_du_Gast_-_presumed_c_1890s_Full_body_publicity_picture_for_a_piano_recital

Portadora de um grande senso de humor, ela também encantava pelo sorriso cativante e pelo seus belos olhos verdes. A francesa Madame Camille Gamond du Gast (du Gast era seu nome de solteira, mas é conhecida também como Camille du Gast, Marie Marthe Desinge Camille du Gast, Camille Crespin du Gast) era uma mulher que estava determinada a fazer aquilo que viesse a cabeça, independente de aprovação da sociedade ou de qualquer autoridade. Nascida no dia 30 de maio de 1868, Camille foi uma esportista de destaque, tendo praticado a nível profissional o alpinismo, paraquedismo, equitação, esgrima e tiro com rifle e pistola.

Em 1890 ela se casou com Jules Crespin, gerente e acionista majoritário das lojas de departamento Dufayel em Paris. E seu casamento foi determinante para que ela conseguisse realizar suas proezas, já que ela contava com o apoio do maridão.

E foi em 1895 que temos a explicação para o motivo dela usar o nome de solteira. Crespin tinha dois balões que eram utilizados para publicidade em festas e isso foi um grande incentivo para que ela praticasse o balonismo. Para não gerar uma publicidade (negativa ou não) para os negócios do marido, ela utilizava o nome de solteira para não chamar a atenção.

Seu interesse pelo automobilismo surgiu em 1900, quando ela assistiu a largada da corrida de estrada Paris-Lyon. Coincidentemente, no mesmo ano, seu marido comprou um Peugeot e um Panhard-Levassor, carro que ela adquiriu suas habilidades como piloto. Isso numa época em que a sociedade não aceitava o fato de uma mulher dirigir.

Obs.: nesta parte da história temos um problema, pois algumas fontes falam que seu marido morreu em 1896/ 97, então eu tive que dar um jeitinho. Além disso, com a fortuna herdada ela pode viajar e participar de várias competições.

Em 1901 Camille participou da sua primeira corrida, a Paris-Berlim. Acompanhada do mecânico Hélie de Talleyrand-Périgord (Príncipe du Sagane e seu pretendente) e a bordo do seu Panhard-Levassor de apenas 20 cv, Camille percorreu os 1.105 quilômetros da prova e não fez feio. Mesmo tendo um carro inferior aos demais e largando em 122º, a francesa chegou em 33º na geral (47 terminaram a prova), sendo 19ª posição na sua categoria. A prova foi concluída em 25 horas e 30 minutos e 23 segundos.

Durante o ano de 1902, Camille participou da corrida Paris-Viena e depois partiu em um longo cruzeiro. Mas em 1903 a francesa voltou a marcar presença e se inscreveu no famoso Rali Paris-Madri. E desta vez ela pode competir de maneira mais apropriada, pois contava com um Du Dietrich preparado para corridas, que rendia cerca de 45 cavalos.

paris madrid

Paris-Madrid_1903_-_Camille_du_Gast_pilots_her_30_hp_De_Dietrich,_with_starting_number_29

Num total de 275 inscritos, du Gast largou na 29ª posição, fato que encantou as pessoas e chamou bastante atenção da mídia. A Autocar comentou: “Os galantes franceses aplaudiram e levantaram seus chapéus, mas para nós mesmos, devemos confessar que há um sentimento de dúvida, pois a corrida feroz de longa distância é bastante coisa para as senhoras”. Outro fato que chamou a atenção foi que Camille não podia se abaixar atrás do volante como os outros pilotos faziam, pois ela usava espartilho – que era a moda da época – e era obrigada a pilotar de forma ereta.

Nos primeiros 120 km, a francesa já havia ganho 20 posições. Quando já estava na oitava posição e seguindo em direção a Bordeaux, um fato mudaria a história. Ela encontra o piloto Phil Stead, que havia sofrido um sério acidente, ferido gravemente. Stead implorou que du Gast continuasse na prova, mas a francesa ficou com o piloto até que o socorro chegasse. Em seguida, Camille deu prosseguimento a corrida e chegou em Bordeaux na 45ª posição.9_20100222_014030

O governo francês interrompeu a corrida em Bordeax e todos os carros foram guinchados por cavalos até a estação de trem. De lá, os carros foram despachados para Paris. A partir deste momento, as corridas de carros em estradas abertas estavam proibidas, pois não havia sequer um registro de quantas pessoas morriam durante as corridas. Mais tarde, Charles Jarrott, um dos grandes pilotos da época, que terminou em quarto lugar com o seu de Dietrich, afirmou que se Camille não tinha parado para ajudar Stead, ele certamente teria morrido.

Em 1904, Madame du Gast queria fazer parte do julgamento que eliminava as competições. Como retaliação, a Comissão Esportiva da ACF acabou banindo as mulheres de participar de qualquer corrida. A desculpa era que a sociedade não aceitaria que uma mulher se ferisse durante as corridas.

Então Camille resolveu participar de corridas de barcos em 1905, e a primeira prova foi no principado de Mônaco.

No mesmo ano ela se torna bastante famosa, pois conseguiu vencer a corrida Alger-Toulon, que era realizada ao longo do Mar Mediterrâneo. Ela foi a única que conseguiu terminar a corrida, enquanto que os outros competidores abandonaram devido a uma grande tempestade que assolou toda a região.

tour de france

Camille continuou com suas aventuras até 1910, quando problemas familiares a impediu de continuar. Já viúva, sua filha tentou assassiná-la para herdar sua fortuna.

Mas antes disso,  ela havia ganho notoriedade pelo seus trabalhos voluntários, se tornado a presidenta da SPA – Anti-Cruelty to Animals Society – Sociedade Francesa para a Prevenção da Crueldade contra os Animais – e fez campanha contra as touradas. Ela também trabalhou com os pobres, na criação de centros para orfãos e mulheres empobrecidas. Inclusive, esse trabalho teve continuidade mesmo depois da ocupação nazista.

Madame Camille Gamond du Gast ajudou os pobres e os menos favorecidos até a sua morte, no dia 24 de abril de 1942.

Vale a pena dar uma pesquisada para vocês conhecerem mais detalhes de Camille, que fez o que bem entendesse da sua vida.

Anúncios
Esse post foi publicado em Camille Gamond du Gast, Curiosidades, Du Dietrich, Esporte, Esportes, França, Mulheres, Mulheres ao Volante, Panhard-Levassor, Paris-Berlim, Paris-Lyon, Paris-Viena, Pessoal, Rali Paris-Madri e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Mulheres ao volante: Camille Gamond du Gast

  1. Republicou isso em Fórmula Total.

    Curtir

Os comentários estão encerrados.